quarta-feira, 5 de setembro de 2007

Apoteose (final)

O Sítio de Suzana está prestes a ficar sozinho. Hoje é o casamento da última mulher daquela família, por toda a gente chamada de «a protegida».

A um canto da sala alguém relembra que ela bateu à porta quando era ainda menina, já com um filho na barriga, expulsa de casa pelos próprios pais, renegada pelos devotos parentes e abandonada pelo pai do seu filho. A família de Suzana, como já fizera antes com outra jovem, a acolheu como uma filha, a ensinou a ler e a escrever, e todas as prendas domésticas. A levou a festas, à praia, a Lisboa, de comboio.

Neste dia, um grupo de mulheres espreita no quarto onde ela dormia numa cama só sua, ao lado duma das irmãs do Sítio, a arca do farto e bonito enxoval que leva, todo por ela confeccionado, desde a dobagem do linho de que é feito. Nunca lhe faltou ajuda e alegria para bordar as enormes bainhas abertas, os crivos, os pontos «de sombra» e de «Richelieu»...

- Não fora a casa de Suzana e ela iria parar a um bordel como matriculada, o uso é este...
Comenta uma idosa senhora.

A noiva foi levada ao altar, na mesma capela altaneira onde todas as mulheres de Suzana se haviam casado, pelo varão mais velho, já casado e pai de filhos.
Todos os irmãos choram discretamente, o mais novo dos homens sai amparado pelo filho da noiva, vão conversar no pátio, mas nos olhos azuis pervinca do tio adoptivo, o rapaz distingue o grande afecto que os une.

Estão frescas e bem casadas as jovens mulheres de Suzana, cada uma no canto da sua casa. A viúva ficará ali por mais algum tempo com seu filho, que apesar de sofrer as sequelas de uma poliomielite, está a negociar a posse de um moinho... Depois, irá juntar-se à filha mais nova, que vive na Vila de Torres, num bairro urbano, com o seu militar e duas meninas...

O Sítio de Suzana conhece agora a despedida final do seu sereno bulício, muito labor e grande sabedoria humana, cheia de alegria e generosidade...

É a última festa da família que ali se realiza, farta de tudo, a que se chega um tocador, só pelo prazer de fazer música, comer e festejar com todos. As mulheres são pedidas para dançar pelos homens presentes. Só a viúva declina, com um sorriso complacente. A concertina esmera-se nas valsas.

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terça-feira, 4 de setembro de 2007

Pas-de-deux

Toda a cordilheira da serra do Socorro é um contorno de altos e baixos, um nivelando o próximo ou o espreitando como num terno jogo de crianças. Próximo de um cume dos mais acessíveis se nos depara um poço antigo, cheio de água, murado e ainda em uso por aquelas paisagens rústicas com o respeito que merece. Território de coelhos e lebres, sob um céu de periquitos, rolas, pombos e milhafres, algumas gaivotas também se aproximam em tempo de tormenta no mar. Carrascos, urzes, loureiros e medronheiros são, entre outros, a vegetação nativa.

Está tudo limpo e tranquilo, naquela tarde que refresca nem um moscardo se atreve a perturbar a sua harmonia. Junto do poço duas jovens completam a tarefa de encher os cântaros, colocá-los sobre a serena montada, uma égua igualmente jovem, de olhos doces e frescos. Conversam e dão risadas, num dueto animado. A mais jovem exclama, ao erguer-se: - Vem ali um cavaleiro!...

A outra pousou o cântaro no poço rebocado e não mais tirou os olhos do moço que se aproximava. Ele vinha já mostrando um belo sorriso, aproximou-se saudando as jovens respeitosamente, disse que acabara de chegar do Porto, onde as escaramuças aconteciam a cada dia. Tinha na fronte uma cicatriz recente, e tudo foi motivo de conversa.

A mulher mais jovem, discretamente, removeu a montada e encaminhou-a para trás, na direcção de casa. Deixava assim à outra, sem que esta desse por isso, espaço e à-vontade para conversar com o belo moço recém chegado.

Quando os dois repararam, estavam sozinhos e olhavam-se com enorme alegria.

O moço haveria de levar a mais nova das irmãs do Sítio de Suzana ao altar, menos de um ano depois de seu alegre e encantado encontro.
Aquela boda levou um bom acompanhamento de charretes até à capela de Dois Portos, empuleirada num dos morros mais altos da zona. A noiva se embrulhava numa enorme mantilha de renda espanhola, de cor beje nacarado. O noivo usava a sua farda. A farta festa foi no Sítio de Suzana, tudo confeccionado em família...

segunda-feira, 3 de setembro de 2007

Mazurca

As duas irmãs sobem alegremente a encosta com grandes sacos de cepas para queimar e riem, ofegantes, perdendo as forças, repousando no chão ao mesmo tempo os fardos de serapilheira.
- Tás toda desafinada!...Deixa ver se me saio melhor...
Começa a cantar em tom estridente e a outra se lhe junta, ambas com lá lá lá e levantando graciosamente os braços.
- A mãe disse que no domingo nos deixaria ir dançar, se o mano quiser ir...
- Achas que o mano...?
- Tadinho... por ele...
- Pior é se a mana começa com as esquisitices dela...
- Que é que tem dançar, valha-me Deus?!...
- Pois...mas sabes como ela é...
- A mãe nunca dançou...
- Mas a mãe disse que sim...

As duas jovens continuaram tagarelando e depressa chegaram à casa dos animais. Ali despejaram os sacos e os guardaram, bem como as cepas, aconchegadas no seu canto.
Foram afagar as éguas de olhos doces e brilhantes. Do pequeno redil, as ovelhas baliram suavemente e também tiveram um carinho.
- A vaca tá outra vez toda babada...
- Não lhe mexas muito, a gente não sabe se o que ela tem é contagioso...
- Vou-lhe meter alteia na ração...
- Põe já, que ela ainda come!... amanhã pode ter fastio...

A casa cheirava a pão, sobre o tampo de madeira da mesa comprida se perfilavam já pratos e talheres. A mãe fazia uma salada no poial, onde um último raio de luz destacava seu luto de 17 anos, o cabelo grisalho descendo em dois bandós sobre as orelhas graciosas.
- Vocês lavem-se e mudem de roupa depressinha -disse com um leve sorriso - Os manos já vêm aí com o pessoal...Uma de vós leva um caldinho à mana... está com aquelas dores...
As duas irmãs trocaram entre si um olhar inquieto.
- Agora, minha mãe, ou mais tarde?
- Mais tarde, minha filha, discretamente...Eu farei um sinal...

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Dois cavaquinhos, uma concertina e três homens de chapéu preto cheios de ritmo e de boa vontade.
O chão batido e regado exala um cheiro penetrante, junto com os trancos de alecrim e de murta que alegram o recinto, demarcado por velhas árvores onde as lanternas estão penduradas.
Uma leve aragem as balouça, trazendo um cheiro distante de uvas secas e açucar queimado. Os cestos de vime forrados de linho branco expõem bolos de ferradura à cobiça dos olhos, loiros e brilhantes, ao lado de broas de mel escurecidas de canela e de queijadas de Sintra, delicadamente embrulhadas em papel.
As duas irmãs descem calmamente a meia encosta do Sítio, amparando o irmão que coxeia e resmunga baixinho, enquanto de soslaio se revê nas jovens, encantadoras em seus fatos compridos, cintados, que só deixam ver o pezinho das botas. De poente vem agora um lampejo de sol que se abriga nas tranças escuras de cada uma delas...
- A que cheirais, minhas irmãs?...
- Ora, meu irmão, são ervas maceradas... aqui coisas da mana...
- Hum hum... cheira bem...

Já se ouve agora claramente o som da pequena orquestra tocando a réplica popular duma mazurca cortesã.
- Que linda música!...
Disseram as irmãs quase em uníssono.
- Já não morremos hoje!...
E voltaram a falar ao mesmo tempo.
- Moderem lá a risota, não vou entrar com duas tontas que não páram de rir!...

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Prelúdio



Está-se bem ao pôr do sol nos dias sempre singulares de Setembro. No viso da serra menor,
filhota da madre serra do Socorro, o plano mais brilhante é o mar que tanto se deixa ver. Imita um lago onde se tocam os tons metálicos do bronze, da prata, do ouro espesso, uma calda onde o olhar desliza até horizontes de costa engolida de brumas... O Palácio de Sintra é um brinquedo, forma infantil que paira na distância...
Ao fundo passa a A8, os carros igualmente correndo em proporções diminutas, procuram ou chegam de Lisboa. São sete horas da tarde. Para trás outros pequenos morros onde se aninham núcleos de casario branco. As vinhas estão prontas para a vindima do oeste, cobertas de púrpura
raiada de acabrunhados castanhos, aqui e além dourados. Nas várzeas, ainda a terra em quadras de areia esbanquiçada ou solo quase negro. Repousa. Espera. Vive.
Inacreditável, que tudo esteja igual. Apenas as casas se desfazem, cada dia maior o amontoado de pedras brancas, apenas um resto de parede de estuque, lívido e aprumado.
À direita se exprime com sons de aragem e pássaros selvagens um bosquete de arbustos nativos. À esquerda brilha uma nesga de água corrente quase afogada em caniços que teima em ir juntar-se ao rio Sizandro.
De pé mas por metade um secular ulmeiro que o corisco enegreceu. Vigia a casa, não perdeu o posto. O que está ou não está se inscreveu na seiva que lhe resta. É o Sítio de Suzana.