Apoteose (final)
O Sítio de Suzana está prestes a ficar sozinho. Hoje é o casamento da última mulher daquela família, por toda a gente chamada de «a protegida».
A um canto da sala alguém relembra que ela bateu à porta quando era ainda menina, já com um filho na barriga, expulsa de casa pelos próprios pais, renegada pelos devotos parentes e abandonada pelo pai do seu filho. A família de Suzana, como já fizera antes com outra jovem, a acolheu como uma filha, a ensinou a ler e a escrever, e todas as prendas domésticas. A levou a festas, à praia, a Lisboa, de comboio.
Neste dia, um grupo de mulheres espreita no quarto onde ela dormia numa cama só sua, ao lado duma das irmãs do Sítio, a arca do farto e bonito enxoval que leva, todo por ela confeccionado, desde a dobagem do linho de que é feito. Nunca lhe faltou ajuda e alegria para bordar as enormes bainhas abertas, os crivos, os pontos «de sombra» e de «Richelieu»...
- Não fora a casa de Suzana e ela iria parar a um bordel como matriculada, o uso é este...
Comenta uma idosa senhora.
A noiva foi levada ao altar, na mesma capela altaneira onde todas as mulheres de Suzana se haviam casado, pelo varão mais velho, já casado e pai de filhos.
Todos os irmãos choram discretamente, o mais novo dos homens sai amparado pelo filho da noiva, vão conversar no pátio, mas nos olhos azuis pervinca do tio adoptivo, o rapaz distingue o grande afecto que os une.
Estão frescas e bem casadas as jovens mulheres de Suzana, cada uma no canto da sua casa. A viúva ficará ali por mais algum tempo com seu filho, que apesar de sofrer as sequelas de uma poliomielite, está a negociar a posse de um moinho... Depois, irá juntar-se à filha mais nova, que vive na Vila de Torres, num bairro urbano, com o seu militar e duas meninas...
O Sítio de Suzana conhece agora a despedida final do seu sereno bulício, muito labor e grande sabedoria humana, cheia de alegria e generosidade...
É a última festa da família que ali se realiza, farta de tudo, a que se chega um tocador, só pelo prazer de fazer música, comer e festejar com todos. As mulheres são pedidas para dançar pelos homens presentes. Só a viúva declina, com um sorriso complacente. A concertina esmera-se nas valsas.
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2 Comentários:
Da neblina que o tempo, máquina impiedosa e trituradora ocultou, conseguiste trazer à luz do dia sinais duma vivência sã que há muito não existe. Num primeiro impulso apetece ver anda mais de perto, até mesmo agir. Depois, ficamos na distância a seguir a história, a beber palavra por palavra, a procurar encontrar o ritmo da dança.
Gostei muito. Parabéns. Espero que voltes a esses tempos que, afinal, não foram triturados totalmente, porque a memória é o que fica sempre para fazer reviver a dança...
Sábias palavras, obrigada. Esses tempos já não foram os meus, estão datados no século XIX e princípios do século seguinte... mas falo sim de minha bisavó, avó, tios avós...Desfrutei de todo o benéfico modo de estar da mais brilhante mulher do Sítio de Suzana, «a Mariana, de Suzana», minha avó materna. Se eu passei o encantamento que guardo dela, se podemos ouvir música e dançar dentro da história dum amor largo, verdadeiro e generoso,sim, reviveremos. Agradeço o voto e a tua bondosa atenção...
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