terça-feira, 4 de setembro de 2007

Pas-de-deux

Toda a cordilheira da serra do Socorro é um contorno de altos e baixos, um nivelando o próximo ou o espreitando como num terno jogo de crianças. Próximo de um cume dos mais acessíveis se nos depara um poço antigo, cheio de água, murado e ainda em uso por aquelas paisagens rústicas com o respeito que merece. Território de coelhos e lebres, sob um céu de periquitos, rolas, pombos e milhafres, algumas gaivotas também se aproximam em tempo de tormenta no mar. Carrascos, urzes, loureiros e medronheiros são, entre outros, a vegetação nativa.

Está tudo limpo e tranquilo, naquela tarde que refresca nem um moscardo se atreve a perturbar a sua harmonia. Junto do poço duas jovens completam a tarefa de encher os cântaros, colocá-los sobre a serena montada, uma égua igualmente jovem, de olhos doces e frescos. Conversam e dão risadas, num dueto animado. A mais jovem exclama, ao erguer-se: - Vem ali um cavaleiro!...

A outra pousou o cântaro no poço rebocado e não mais tirou os olhos do moço que se aproximava. Ele vinha já mostrando um belo sorriso, aproximou-se saudando as jovens respeitosamente, disse que acabara de chegar do Porto, onde as escaramuças aconteciam a cada dia. Tinha na fronte uma cicatriz recente, e tudo foi motivo de conversa.

A mulher mais jovem, discretamente, removeu a montada e encaminhou-a para trás, na direcção de casa. Deixava assim à outra, sem que esta desse por isso, espaço e à-vontade para conversar com o belo moço recém chegado.

Quando os dois repararam, estavam sozinhos e olhavam-se com enorme alegria.

O moço haveria de levar a mais nova das irmãs do Sítio de Suzana ao altar, menos de um ano depois de seu alegre e encantado encontro.
Aquela boda levou um bom acompanhamento de charretes até à capela de Dois Portos, empuleirada num dos morros mais altos da zona. A noiva se embrulhava numa enorme mantilha de renda espanhola, de cor beje nacarado. O noivo usava a sua farda. A farta festa foi no Sítio de Suzana, tudo confeccionado em família...

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