Mazurca
As duas irmãs sobem alegremente a encosta com grandes sacos de cepas para queimar e riem, ofegantes, perdendo as forças, repousando no chão ao mesmo tempo os fardos de serapilheira.
- Tás toda desafinada!...Deixa ver se me saio melhor...
Começa a cantar em tom estridente e a outra se lhe junta, ambas com lá lá lá e levantando graciosamente os braços.
- A mãe disse que no domingo nos deixaria ir dançar, se o mano quiser ir...
- Achas que o mano...?
- Tadinho... por ele...
- Pior é se a mana começa com as esquisitices dela...
- Que é que tem dançar, valha-me Deus?!...
- Pois...mas sabes como ela é...
- A mãe nunca dançou...
- Mas a mãe disse que sim...
As duas jovens continuaram tagarelando e depressa chegaram à casa dos animais. Ali despejaram os sacos e os guardaram, bem como as cepas, aconchegadas no seu canto.
Foram afagar as éguas de olhos doces e brilhantes. Do pequeno redil, as ovelhas baliram suavemente e também tiveram um carinho.
- A vaca tá outra vez toda babada...
- Não lhe mexas muito, a gente não sabe se o que ela tem é contagioso...
- Vou-lhe meter alteia na ração...
- Põe já, que ela ainda come!... amanhã pode ter fastio...
A casa cheirava a pão, sobre o tampo de madeira da mesa comprida se perfilavam já pratos e talheres. A mãe fazia uma salada no poial, onde um último raio de luz destacava seu luto de 17 anos, o cabelo grisalho descendo em dois bandós sobre as orelhas graciosas.
- Vocês lavem-se e mudem de roupa depressinha -disse com um leve sorriso - Os manos já vêm aí com o pessoal...Uma de vós leva um caldinho à mana... está com aquelas dores...
As duas irmãs trocaram entre si um olhar inquieto.
- Agora, minha mãe, ou mais tarde?
- Mais tarde, minha filha, discretamente...Eu farei um sinal...
. . . . . . . . . . . . . . .
Dois cavaquinhos, uma concertina e três homens de chapéu preto cheios de ritmo e de boa vontade.
O chão batido e regado exala um cheiro penetrante, junto com os trancos de alecrim e de murta que alegram o recinto, demarcado por velhas árvores onde as lanternas estão penduradas.
Uma leve aragem as balouça, trazendo um cheiro distante de uvas secas e açucar queimado. Os cestos de vime forrados de linho branco expõem bolos de ferradura à cobiça dos olhos, loiros e brilhantes, ao lado de broas de mel escurecidas de canela e de queijadas de Sintra, delicadamente embrulhadas em papel.
As duas irmãs descem calmamente a meia encosta do Sítio, amparando o irmão que coxeia e resmunga baixinho, enquanto de soslaio se revê nas jovens, encantadoras em seus fatos compridos, cintados, que só deixam ver o pezinho das botas. De poente vem agora um lampejo de sol que se abriga nas tranças escuras de cada uma delas...
- A que cheirais, minhas irmãs?...
- Ora, meu irmão, são ervas maceradas... aqui coisas da mana...
- Hum hum... cheira bem...
Já se ouve agora claramente o som da pequena orquestra tocando a réplica popular duma mazurca cortesã.
- Que linda música!...
Disseram as irmãs quase em uníssono.
- Já não morremos hoje!...
E voltaram a falar ao mesmo tempo.
- Moderem lá a risota, não vou entrar com duas tontas que não páram de rir!...
. . . . . . . . . . . . . . . . .

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