segunda-feira, 3 de setembro de 2007

Prelúdio



Está-se bem ao pôr do sol nos dias sempre singulares de Setembro. No viso da serra menor,
filhota da madre serra do Socorro, o plano mais brilhante é o mar que tanto se deixa ver. Imita um lago onde se tocam os tons metálicos do bronze, da prata, do ouro espesso, uma calda onde o olhar desliza até horizontes de costa engolida de brumas... O Palácio de Sintra é um brinquedo, forma infantil que paira na distância...
Ao fundo passa a A8, os carros igualmente correndo em proporções diminutas, procuram ou chegam de Lisboa. São sete horas da tarde. Para trás outros pequenos morros onde se aninham núcleos de casario branco. As vinhas estão prontas para a vindima do oeste, cobertas de púrpura
raiada de acabrunhados castanhos, aqui e além dourados. Nas várzeas, ainda a terra em quadras de areia esbanquiçada ou solo quase negro. Repousa. Espera. Vive.
Inacreditável, que tudo esteja igual. Apenas as casas se desfazem, cada dia maior o amontoado de pedras brancas, apenas um resto de parede de estuque, lívido e aprumado.
À direita se exprime com sons de aragem e pássaros selvagens um bosquete de arbustos nativos. À esquerda brilha uma nesga de água corrente quase afogada em caniços que teima em ir juntar-se ao rio Sizandro.
De pé mas por metade um secular ulmeiro que o corisco enegreceu. Vigia a casa, não perdeu o posto. O que está ou não está se inscreveu na seiva que lhe resta. É o Sítio de Suzana.

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